domingo, fevereiro 18, 2007

Ira

O texto que se segue é de autoria do pastor Ricardo Gondim
Aproveitem

Sou pastor de uma comunidade cristã em São Paulo; lidero uma rede de igrejas espalhadas pelo Brasil, somando entre 20 e 25 mil pessoas; conduzo um programa de rádio diário também em São Paulo; escrevo para duas revistas de circulação nacional e, porque mantenho um site na internet, sinto-me membro da novíssima comunidade dos blogueiros.

Apesar disso, minha capacidade transformadora é pífia. Minha voz, semelhante a de milhões de brasileiros, não representa quase nada; não sou conhecido das elites, nunca estive na presença de um presidente da república e jamais usei um passaporte diplomático.

Partilho do sentimento de impotência que toma conta dos meus irmãos. Sinto-me frustrado, revoltado, irado, indignado, sei lá que expressão usar, com tudo o que ocorre na minha terra.

Assisti a eleição dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado com uma vontade louca de comprar um megafone, ir para Brasília, e ficar gritando palavrões em plena praça pública. Tive impulso de chamar aqueles políticos arrumadinhos, empertigados dentro de seus ternos novíssimos, posando, feito jacus, para fotografias, com as palavras mais chulas da gíria portuguesa .

Entendo que o jogo político é necessário; sei que disputas de poder acontecem em todas as instituições; compreendo que “ruim com os deputados, pior sem eles”.

Ninguém precisa me dar aula de democracia (sou filho de um preso político na ditadura e sei o horror dos tiranos), mas, mesmo reconhecendo a necessidade das instituições, fiquei vermelho de raiva com a inauguração do novo Congresso.

Vejo meu país sangrando e os mesmos chavões sendo repetidos. Sinto que vivemos em meio a um desdém aviltante.

Ninguém mais se lembra da aluna de uma universidade do Rio de Janeiro, vítima de uma bala perdida, e que ficou tetraplégica; ninguém mais se lembra daquele senhor que chorava enquanto desenterravam seu filho de debaixo da cama de um soldado da Polícia Militar; ninguém mais se lembra da fotografia de uma adolescente se prostituindo, sentada no colo de um velho nojento do Amazonas; ninguém mais se lembra das mães que enterraram seus filhos, mortos por falta de asseio numa Unidade de Tratamento Intensivo de um hospital público.

Dois dias depois das tragédias, chegam outros sinistros mais pavorosos e vamos nos acostumando; de horror em horror chegaremos no inferno preparado pelos próprios brasileiros.

Querem saber? Chega...

Para mim chega, já que os evangélicos degringolaram e hoje a grande maioria dos freqüentadores dos cultos é composta de pessoas infantilizadas pela religião; noto que o movimento do qual já fiz parte não se importa com a justiça nacional, não chora com os que choram e não defende o direito dos mais frágeis. Eles se reúnem em seus auditórios com uma única preocupação: acessar o divino, para se safarem.

Para mim chega, já que vejo a elite burguesa se locupletando há séculos, sem que ninguém consiga fazê-la mudar. Ela é preguiçosa, mesquinha, egoísta e insensível à miséria que vive do outro do lado do muro de seus condomínios. A elite brasileira se preocupa prioritariamente em blindar seus carros, freqüentar desfiles de moda breguíssimos em shoppings centers, freqüentar os mesmos cabeleireiros badalados e caros das modelos analfabetas, sair, feito “papagaio de pirata”, nas páginas das revistas de fofoca e comprar roupas em Miami. Ela não está nem aí para a miséria que cresce sem parar.

Para mim chega, já que os intelectuais nacionais atolaram na irrelevância de seu esnobismo; trancaram-se em suas torres de marfim, com textos herméticos e propostas mirabolantes e inúteis dos teóricos de direita ou de esquerda.

Imóvel e impotente, tenho vontade de chutar o mastro central desse grande circo de lona rasgada, chamado Brasil.

Não passamos de um povinho sem sangue nos olhos, uma nação sem brios.

Faltam poucos dias para o país parar de novo para ver as escolas de samba, patrocinadas pelo tráfico, desfilarem a nudez das mulheres mais deslumbrantes que nossa raça produziu.

Os poucos gringos com uma libido maior que o medo de morrer, vão babar. E nós, sentaremos em nossas poltronas por quatro dias, embriagados de cerveja e sexo esqueceremos que já perdemos nossa alma.

Morreu um menino e estou com asco dos brasileiros que elegeram o Clodovil, o Maluf, o Genoíno, o Palocci, o Collor, o Sarney e toda aquela farsa chamada de Congresso Nacional. Sinto náuseas e o meu inferno são os próprios brasileiros.

Morreu um menino e não posso dormir sem antes dizer que, se pudesse, diria aos meus patrícios que a nossa perversidade está transbordando a medida da ira divina.

Morreu um menino, mas o pior ainda está por vir.

Morrerão muitos outros e continuarão as mesas redondas de idiotas discutindo as fofocas do futebol.

Morrerão muitos outros e a Daslu continuará vendendo calças jeans de 2 mil dólares.

Morrerão muitos outros e alguns poucos continuarão tomando vinho de 7 mil dólares em banquetes faustosos.

Morrerão muitos outros e os pastores continuarão prometendo abrir portas de emprego para quem der dinheiro em seus cultos.

Cansei do deboche e não sei o que fazer. Estou revoltado com o cinismo e não sei para onde me voltar.

Antes que esqueça: o nome do menino era João Hélio e seus pais ainda estão chorando muito...

Soli Deo Gloria

Uniões contaminadas

O texto abaixo foi retirado do Site do Caio
Achei muito interessante e pertinente.
Aproveitem

Vitor



Tem gente que pensa que gente se entrega a outra gente e nada acontece. Tem gente que se dá a outra gente sem saber que a gente é feita de gente. Tem gente que se ilude com a idéia de que gente não transfere gente para outra gente. Tem gente que não entende que gente é contagiada quando se faz ‘um’ com outra gente. Tem gente que pensa que é brincadeira quando Deus diz pra gente não misturar o espírito com o espírito de certas gentes.

Sim, gente passa gente pra gente!

“Serão os dois uma só carne...”

“Faz-se um com ela...”

“Grande é este mistério...”

Paulo disse que na união conjugal tais ‘misturas’ atingem seu clímax para o bem, mas também pode ser para o mal.

Ele diz: “...dela cuida como de sua própria carne...”

E mais: “... posto que já não são dois, porém um...”

E em outro lugar: “... a mulher crente, santifica o marido incrédulo... de outra sorte seriam impuros...”


Eu creio em vampiros psicológicos, em seres que comem você por dentro, em relacionamentos que são como o ‘bicho da goiaba”, o amazonense “tapurú”.

Ninguém se une a ninguém sem contágio, para o bem ou para o mal.

Uniões têm o poder de mudar interiores, alterar almas, atingir o espírito.

Se alguém sai de casa e contrata uma prostituta, e faz isso uma vez, corre o risco de contaminar-se fisicamente, e, pode desenvolver um vício para a alma.

Mas se alguém sai de casa sempre para se prostituir, essa pessoa, mesmo que mude de prostituta todas as vezes, será contaminada, não necessariamente no corpo, e não necessariamente pelo espírito de uma delas, mas com certeza o será pelo “espírito de prostituição”, que não é algo muito forte na prostituta—que não se entrega por prazer—, mas o é na alma do freguês, visto que ele sim, procura ‘algo’ com avidez física e psicológica.

Amizades longas com pessoas ruins podem acabar com a gente. Mas amizades curtas e breves também têm o poder de contaminar, e desviar um ser humano de seu caminho.

Nada, porém, é mais profundo no seu poder de contágio do que uma união conjugal.

Nesse caso, se as pessoas são de espírito bom, mesmo que não se amem, provavelmente não se façam mal.

Mas se ambas ou apenas uma delas for de ‘outro espírito’, então, é muito difícil que o parceiro não seja contaminado na alma.

Por esta razão nada há melhor do que a união de duas pessoas do mesmo bom espírito, especialmente se tiverem a ventura de se encontrar bem cedo na vida, e se manterem em união por toda a vida.

Tais pessoas são as mais leves, livres, felizes, e simples!

Há quem queira muita ‘variedade’...

Meu Deus, que ilusão!

Mal sabem que a tal ‘variedade’ vai deixando gambiarras penduradas pela gente, como fios desencapados e ‘em curto’.

Se pudéssemos ver espiritualmente tais pessoas, as veríamos como troncos cheios de cabeças, braços, olhos, e pernas.

Sim, completamente monstrificadas...

Simbiotizadas de tantas formas e de tantas maneiras, que elas mesmas assustar-se-iam se pudessem se enxergar.

Mas não é preciso enxergar para ver. Basta que se olhe para dentro do coração, para as legiões de seres..., para sentimentos que cada vez mais se complexificam na alma, para mentes cada vez mais compartilhadas pelos entes psicológicos que foram sendo agregados no caminho.

Por isso o homem de coração simples é bem mais feliz do que aquele que sofisticadamente se auto-designa de complexo.

Quando a sabedoria ordena ao jovem que guarde puro o seu coração, que simplifique os seus caminhos, e que seja focado em seus sentimentos, ela quer apenas dizer o que acabei de expor.

Sim, não é nada moral, como se pensa. Mas sim é algo que tem a ver com a saúde do ser, com a paz para viver, com a unicidade existencial, com a pureza psicológica.

Hoje, porém, é moda ser infeliz, complexo, sensível (significando ‘sofrido’), indecifrável, misturado, multiuso..., de tal modo que essa pessoa tem que ter ‘seu próprio analista’.

Toda gente é uma ‘mistura’ de todas as gentes que passaram pelo coração, para o bem e para o mal.

Nessa viagem da formação do ser há aquelas pessoas que são inevitáveis para nós, como os pais e os irmãos—nossos primeiros e involuntários casamentos na existência.

Ora, muitos são os estragos que essa ‘mistura’ pode causar quando mal discernida.

As piores misturas, todavia, são aquelas que escolhemos—consciente ou inconscientemente—para viver e fazer parte da gente pela via da união.

Uniões são coisa muito séria...

Sim, elas podem nos erguer ou nos afundar; podem nos abençoar ou nos amaldiçoar; podem nos trazer paz ou podem nos trazer angustias; podem nos salvar ou nos destruir.

Por isso, se você está só, ou vindo de algo que como ‘união’ fez mal a você, não tenha pressa. Abrace sua solidão com respeito e dignidade, e agradeça a Deus o livramento. E não sucumba à tirania de se fazer acompanhar. Afinal, veja bem quem vai lhe ‘acompanhar’.

Mas se você está lendo isso e pensando: “E agora? Depois de tanto ‘experimento’, ainda haverá esperança para mim?”

Eu lhe digo:

Sempre há esperança. O Espírito Santo é real. O amor de Deus limpa e cura. Mas o homem haverá de ser curado enquanto discerne cada pedaço de outros que foram largados no baú de sua alma. E terá que ter a coragem de discerni-los e jogá-los para fora de si mesmo.

Ora, tal cura implica em discernir ‘qual carne e qual sangue’ fazem parte de nossa ‘comunhão’ existencial e espiritual. E obviamente isto só tem a ver com quem permitimos entrar e ter algum pedaço de nós, especialmente em uniões.

Tal exercício de discernimento é doloroso, porém libertador.

E se você discernir tais espíritos na presente constituição de sua alma, mande-os sair... pois eles sairão.

Depois disso, todavia, encha a sua ‘casa’ do que é bom, e não a deixe vazia, posto que essas coisas se vão... mas de vez em quando voltam a fim de ver como anda o lugar antes ocupado, conforme nos ensinou Jesus, tanto sobre espíritos demônios, quanto também acerca de qualquer espírito, inclusive os espíritos dos humanos que já nos possuíram ou tentaram faze-lo.

Esses ‘entes’, todavia, cansam de voltar. E é assim que se vai alcançando paz mais e mais...

Ora, é por tudo isso que lhe peço:

Veja bem com quem você está se unindo.

E mais:

Veja bem que espíritos você contraiu durante vínculos adoecidos.

E, assim, trazendo todas as coisas para a luz, deixe que a verdade expurgue de seu ser aquilo que não é você.

E não esqueça:

É na Luz e na Comunhão verdadeira que o Sangue de Jesus nos purifica de todo pecado.


“Pois se andarmos na luz, como Ele na luz está; mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Seu filho, nos purifica de todo pecado”.


Nele,



Caio

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Minha Fortaleza

Eu caminhei durante anos no deserto de minha vida, carregando comigo as poucas coisas realmente importantes, que tinham algum significado para mim. Coisas que marcaram minha vida, e que de modo nenhum eu abandonaria. A estrada tinha sido longa, cansativa, mas no fundo recompensadora. Já havia passado por tantas tormentas, me fortificado tanto, que um dia, enquanto parava numa fonte de águas para matar a minha sede, olhei meu próprio reflexo na àgua, me reconhecia, mas estava tão diferente. Mais velho robusto, com um tom de serenidade no rosto que parecia inabalável, mas que no fundo carregava uma aura de medo no futuro. Os olhos estavam mais cansados, porém mais profundos. Escondiam algumas tristezas, mas muitas alegrias durante a caminhada.
Cavalguei durante muito tempo no deserto, procurando um lugar para me fixar, cansado dessa vida nômade, vivendo de alegria em alegria, de tristeza em tristeza, mas sempre combatendo um combate solítário, amparado apenas pelos meus tesouros pessoais, os quais carreguei por toda a minha vida, e por minha fé, que tinha me guiado nos momentos de escuridão, e me mostrado a saída das Tempestades, o Criador o sabe.
Mas a caminhada já se fazia longa, e eu não mais queria encontrar as tormentas do caminho, queria encontrar um abrigo onde podia morar em paz, e cultivar meus tesouros com serenidade e sabedoria, onde eu pudesse encontrar o melhor que há em mim.
Foi quando eu avistei a primeira morada, no horizonte além das dunas, podia se ver o despontar de suas torres no vento do deserto. Meus olhos se fixaram no horizonte e eu exitei por um instante, era um caminho diferente do que eu costumava a seguir, não conhecia essa nova direção, mas meu atual caminho se perdia ao longe sem me mostrar nenhuma esperança de encontrar uma morada, enquanto esse, mesmo que desconhecido, poderia me levar e encontrar o local de origem das torres que se despontavam no horizonte.
Quão difícil foi a decisão daquele dia. Durante alguns instantes fiz uma oração ao Criador, pedindo sua proteção para essa nova jornada, subi em meu cavalo e caminhei para meu novo destino. Meu antigo caminho se perdia atrás de mim, até que finalmente não pude mais observá-lo. Agora, só me restava prosseguir para encontrar a morada.
Aqueles foram dias de ansiedade, a cada dia as torres iam se definindo no horizonte, e onde havia areia, começou a aparecer a vegetação, plantas pequenas iam surgindo pelo caminho, preenchendo espaços entre uma duna e outra, até que as dunas começaram a ficar menos frequentes, dando espaço para uma vegetação rasteria cada vez mais presente. No horizonte a construção a qual pertenciam as torres se definia. Era como um Castelo enorme, rodeado por uma extensa muralha, quatro torres maiores se posicionavam nas quatro direçôes cardinais. A muralha era de um branco acinzentado muito marcante, que adquiria um contraste profundo com o verde fosco da vegetação ao seu redor. Não avistei ninguém a princípio, mas ainda estava a uma certa distância do Castelo.
Aumentei a intensidade de minha marcha, o Sol logo iria se por e eu não queria estar longe dos portões em terras desconhecidas.
Quando cheguei ao pé da muralha, não havia guardas nas torres, nem portão que proibísse a entrada pelo arco principal, também não existia fosso ou algo parecido, para dificultar o acesso a muralha ou ao arco de entrada. Foi quando eu percebi que da base do muros saiam pequenos canais que se estendiam por linha reta vários metros a frente invadindo o campo de vegetação em torno do Castelo, dos canais saia uma àgua limpa, cristalina como eu nunca havia visto antes parei o cavalo ao lado de um dos canais desci e mergulhei minha mão do pequeno riacho que corria por ele. A água não era nem quente nem tão fria, mas era resfrescante, enchi a palma de minha mão e levei um pouco até minha boca. Não tinha gosto, mas ao prová-la percebi uma suavidade e vitalidade doces entrarem em minha alma. Percebi que provavelmente todo o terreno verde ao redor do Castelo era irrigado por esse canais, isso explicava porque numa terra tão árida onde as chuvas são tão escassas poderia haver tanta vida. A água vinha de dentro do Castelo.
Me apressei para chegar ao arco de entrada, era todo esculpido de modo tão belo, mas também tão simples, que eu poderia ficar olhando por horas a fio, ao cruzar o arco pude ver uma das coisas mais belas que eu jamais vi em minha vida. A muralha simples e as quatro torres escondiam dentro de si um jardim ornamentado com uma diversidade de árvores e plantas incríveis, havia pequenas construções que se mesclavam com as árvores a ponto de não se perceber o que era construção e o que era árvore. As árvores eram brancas acinzentadas como os muros e as contruções, de modo que tudo parecia feito do mesmo material, tudo parecia carregar vida dentro de si.
O jardim era circular como a muralha, começava na base do muro e se estendia até chegar ao centro do pátio não havia uma contrução que não fizesse parte do jardim e não havia nenhuma parte do jardim, que em si mesmo não fosse ornamento de uma construção. Tudo tão harmonico e perfeito.
Chegava a ser ímpossível definir se tudo era jardim ou uma pequena cidadela. Na verdade era um misto de ambos. Pequenos caminhos, pavimentados com o mesmo tipo de material se estendia pelo meio do jardim, servindo de passagem para as diversas partes do castelo, creio eu.
Caminhei por algum tempo pelos caminhos, até encontrar o centro do pátio e consequentemente o centro do jardim. Lá onde tudo parecia se originar, e para onde tudo apontava, havia uma fonte. Esculpida a partir de uma parte que parecia brotar do próprio chão, a fonte era de uma arquitetura simples, mas singelamente bela. De uma beleza encantadora, e dela brotava a àgua que irrigava os canais, que se originavam na fonte, corriam e atravessavam o pátio e iam desembocar no terreno fora das muralhas.
A fonte trazia vida a tudo que existia no castelo, e fora dele, não havia uma árvore ou planta do jardim que não fosse irrigada pelas águas cristalinas da fonte.
Em torno da fonte haviam flores, muitas flores, de diversos tipos e cores, que eu não conhecia. Todas elas exalavam um perfume suave mas marcante e pintavam com suas cores uma alegria sem igual em torno da fonte, como se quisessem marcar o ponto inicial e final de toda a vida ao redor.
Me ajoelhei e beijei o chão onde pisava, agradeci ao Criador por ter encontrado um lar, uma fortaleza para me refugiar.
Aqueles foram dias felizes, de manhãs de Sol, cuja luz refletia no branco de tudo e iluminava tudo ao redor, eu sentia o calor que emanava de tudo quanto existia no jardim, pois tudo quanto existia pulsava de vida e me contaminava de uma forma que eu acreditei ser irreversível. Coloquei meus tesouros ao lado da fonte de forma que eu pudesse olhar todos os dias e perceber que o Criador me abençoou com tudo o que eu havia encontrado, e que toda minha vida tinha me levado até ali. Eu ouvia a vida que corria pelo jardim, pequenos animais que alí existiam, os frutos das árvores dos quais eu me alimentava, a brisa no final da tarde que me aliviava a alma, e o amigos que ali recebi e as vezes que à eles falei de minha alegria por ali estar, e por tudo que eu havia ganho. Eu não amava só aquele lugar, mas tudo o que aquele lugar havia me trazido de bom.
E a noite quando o Sol caía e a lua despontava no céu, o vento batia nas folhas das árvores e produzia uma melodia tão doce e nostálgica que os pássaros de seus ninhos cantavam junto com as árvores uma canção sem nenhuma palavra, mas que me dizia tanto sobre mim mesmo de uma forma tão profunda, e eu adormecia nesse sentimento. Não era só eu que estava naquele lugar, o lugar também já estava em mim.
Até que um dia, o qual jamais esquecerei, enquanto durante o primeiros raios de Sol eu caminhava pelo jardim, encontrei nos fundos do Castelo, um caminho que eu não conhecia, que eu nunca tinha visto ou trilhado, e que se perdia na imensidão a frente.
Fiz esse caminho que havia me levado até uma escada, que descia nas profundezas abaixo.
Pela primeira vez encontrei algo que não era harmonioso com todo o resto. A escada escavada no chão, era de um outro tipo de minério, diferente da muralha e das construções. Era escura e fria, trazia dentro de si uma tristeza inpronuciável. A medida que eu descia sentia frio, muito frio, e a luz ia ficando para trás, e havia um medo crescente que emanava das profundezas para onde a escada me levava.
Parei na metade do caminho, e voltei, com medo de ver o que havia no fim da escada.
Mas o dias nunca mais foram os mesmos. Mesmo com o calor de tudo que emanava, mesmo com a vida ao meu redor, e com as melodias da noite, eu ainda pensava na escada e para onde ela conduzia.
De modo que um dia, eu retornei, e desci até o fim.
Havia uma atmosfera densa e pesada no fim da escada. olhei para cima e a luz do dia mal conseguia ser vista, portanto mal iluminava o que existia a minha frente. Quando terminei de descer, parei em frente a uma porta de madeira maciça. Parecia feita com o tronco das árvores, mas não era branca nem pulsava de vida. Era mais escura, e pulsava com um frio que me gelou a mão.
Era um porão, acredito eu, mas a porta era tão espessa, que quem quer que o tenha feito, o fez para permanecer lacrado.
Havia alguma coisa escrita na fechadura, mas já era tão antiga que não pude ler. Hoje percebo que talvez fosse uma advertência. Advertência que eu infelizmente não levei a sério.
Segurei no metal frio da fechadura, e o puxei com toda a força que eu tinha, aos poucos a porta foi se movendo até abrir.
Nesse momento senti uma rajada de ar frio, que veio de dentro do porão, um ar de certo modo, ancestral, que havia sido aprisionado ali há muito tempo, seco.
Não senti nada maligno, mas havia uma atmosfera de tristeza profunda que me invadiu a alma e pela primeira vez desde que havia chegado eu chorei.
Subi as escadas como uma sensação de vazio por dentro, que aos poucos me dominou.
O dias que se seguiram foram tristes e funebres. Percebi que aos poucos a água, a vida da fonte, começou a secar, e eu via desesperado, toda vida que me cercava ir embora. De algum modo, que eu ainda hoje não sei, o porão fez a fonte secar.
As folhas das árvores cairam aos poucos, não havia mais musica a noite, e eu já não dormia. O pássaros se foram os animais também. Tudo que era de um branco acinzentado marcante, aos poucos foi escurecendo, como a porta do porão.
A paisagem verde do jardim, que me trazia tanta alegria, começou a definhar como o sentimento que eu tinha, e de verde passou para castanho pálido de folhas secas, até que por fim, não existia mais vegetação, nem castanha nem verde.
A fonte finalmente secou, e o Sol da manhã não era mais refletido, mas absorvido, de forma que sempre existia uma penumbra dentro do Castelo. Nem mais as luzes o visitavam.
As Noites era tão silenciosas, a não ser pelo vento, cortante, que trazia um canto solitário de lamento, pelo que um dia foi, mas que já não existia mais.
E durante muitos dias eu caminhava no pátio, de olhos fechados, imaginando como tudo tinha sido, me prendendo a uma lembrança doce, de um passado cada vez mais distante.
Eu estava no lugar, e o lugar estava em mim, de modo que eu também morria aos poucos.
Até que um dia, numa tarde de verão, veio uma tempestade, e choveu pela primeira vez desde que eu havia chegado ali.
E enquanto eu estava sentado no pátio, sendo molhado pela chuva, eu chorei.
Chorei uma dor sem palavras, uma saudade sem tradução, um verdito irrevogável de solidão.
Mas a chuva passou, e um raio de Sol entrou novamente pelas muralhas, e então eu vi o cenãrio desolado que estava ali.
Levantei de alma limpa, olhei para os céus, como quem busca uma resposta do Criador, e percebi, lá no fundo, que aquele não era o meu lugar.
Peguei os meus tesouros ao lado da fonte, meu cavalo, e parti pelo arco principal. Quando cruzei o arco, vi a desolação do campo de areia, que antes era de um verde tão lindo, mas agora era vazio, como tudo o que o cercava.
Circundei a muralha, até achar uma caminho, para uma encosta atrás do castelo. E percebi que a vegetação era mais densa no topo do monte. Ainda existia vida por alí. Respirei fundo, e cavalguei até lá.
Esses são dias esperançosos. No topo da enconsta, não havia castelo ou fortaleza, mas havia um riacho, de águas cristalinas, tão suaves e revigorantes quanto a que eu encotrei no castelo, talvez a fonte se alimente daqui, não sei.
Conheci muitos bons amigos, e redescobri amigos antigos, que hoje percebo, não conhecia de verdade. Com sua paciência e amizade, eles têm me ajudado a construir minha própria fortaleza. Hoje percebo que aprendi muito sobre mim mesmo e sobre onde devo estar. Sei que tenho que construir um porão, pois nem tudo eu quero manter a vista, mas que não devo deixa-lo lacrado. Se ele acumular coisas por muito tempo, pode acabar contaminado o que nexiste de bom.
As manhãs tem sido muito edificantes. meus amigos sempre conversam comigo, e percebendo minha dor, me abraçam. As vezes me dizem coisas bonitas, as vezes ficam apenas em silêncio com um olhar que diz "estamos aqui", e eu me sinto feliz por te-los comigo. No fim da tarde quando todos os passaros cantam e o cheiro da relva me domina. as folhas das arvorés balançam, cantando uma canção, que novamente não tem palavras, mas que me fala profundamente de um novo tempo, de um recomeço, de um novo encontro.
Então eu sento, olho para o céu, e oro para o Criador, agradecendo por essas pessoas que Ele colocou em minha vida, e através das quais, eu acredito profundamente, Ele fala comigo.
Desde que cheguei aqui, todas as manhãs, eu observo o castelo abaixo, triste e vazio, colho algumas flores e desço até lá. Meus amigos se entreolham, e num silêncio passivo, me respeitam, sabendo que nada sai de ninguém da noite para o dia.
Todos os dias eu chegava, ia até a fonte seca, plantava as flores na terra árida, e fazia uma oração, pedindo pelo retorno da vida naquele lugar. No dia seguinte eu retornava com novas, e retirava as flores do dia anterior, mortas e secas pela aridez do solo.
E hoje eu voltei, para o mesmo ritual, e percebi que as flores que eu plantei, não haviam secado, coloquei minha mão na terra e ela estava húmida.
Sorri, pois a vida estava voltando. Ao invés de pedir em minha oração, eu agradeci.
Subi no meu cavalo, e olhei pela última vez tudo ao meu redor, e me veio um sentimento de nostalgia, dos tempos de vida e alegria. A vida estava retornando, o porão talvez, finalmente, estivesse vazio. Havia esperança
Suspirei e disse "Adeus".
Eu não estava mais naquele lugar, e aquele lugar não estava mais em mim.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Bolo de Fubá

Recentemente, nas festas de fim de ano, viajei para a Enseada das gaivotas, litoral de São Paulo, com toda minha família.
O lugar é muito bonito, e como era de se esperar, tem um comércio voltado para o clima quente de verão. Visitei uma sorveteria num fim de tarde, onde o sistema era self-service, existiam muitas dessas lá. A variedade de sabores era enorme, assim como, a variedades de coberturas, caldas, frutas e grãos que se podia adicionar ao sorvete. As combinações eram praticamente infinitas, ou bem próximas disso. Como meu estomago fala mais alto nessas situações, não pude me contentar com uma combinação simples, então tentei experimentar a maioria das coberturas, grãos e frutas possíveis de uma única vez. O sorvete ficou bem colorido, vistoso e até mesmo apetitoso. Mas quando fui provar percebi que tinha criado uma sobremesa hiperdoce, que tinha um pouquinho do sabor de tudo, mas que na verdade não se parecia com nada, muito menos com sorvete... A mistura de diversos elementos que fiz, não me permitia saborear o sorvete que existia debaixo de tudo aquilo. Paguei caro, e infelizmente, não aproveitei nada.
Minha avó, não sabia ler e escrever, sempre foi muito simples, mas era uma cozinheira de mão cheia, passei parte de minha infância e adolescência com ela, e de longe o que eu mais gostava de experimentar era o seu bolo de fubá. Ela decorava a receita, como se fazia antigamente, medindo em xícaras e colheres, tinha até uma xícara específica, vermelha, para fazer as medidas. Simples, rápido e fácil, mas muito melhor do que qualquer bolo que eu tenha provado em qualquer doceria durante minha vida.
Pensando nisso, e graças a uma metáfora que o Carlos fez numa reunião do Caminho da Graça aqui em Campinas, que passei a ver como na ânsia de "melhorar" o que por si só já é bom, é que nós perdemos a noção do sabor que a simplicidade possui.
Não consigo mais olhar para o que hoje se chama "Igreja Evangélica Brasileira", salvo raras excessões, e não ver um bolo todo enfeitado e cheio de glacê, para se tornar mais atraente para o "público".
Virou, literalmente, moda colocar confeite nos ajuntamentos ditos "cristãos" hoje e dia. Poucos buscam a simplicidade do Galileu que anunciava nos montes, nas praias e nos jardins a mensagem do perdão, do amor, da reconciliação e da ressurreição. Um homem que só pregava nos locais "oficiais" da religião, até que fosse expulso, pois não estava interessado na mediocridade daqueles que se julgavam "gestores" das intenções de Deus na Terra, e que não negociava, nem fazia média com ninguém, mas buscava através de comparações simples, mostrar o princípio mais profundo do Reino de Deus, a comunhão e o amor a Deus, que só se manifesta no amor ao meu irmão.
E o bolo era assim, sem "glacê" de lugar santo, sem "confete" de justiça própria ou "granulado" de controle de almas humanas.
Continha os elementos necessários para o crescimento, "dois ou três, em meu nome" disse Jesus, e o fermento de amor os fazia expandir mais e mais. Ora ninguém escolhe um bolo pela forma que tomou, devido a fôrma na qual foi posto. Um bolo não se mede, pelo fato de ser redondo, retangular, ser em forma de anel, como um pudim, ou em diversos andares. É fato que isso impressiona a princípio, mas se a massa não for boa, nem mesmo um bolo de casamento fica bom.
Logo um bolo cresce e toma a forma da fôrma que o continha, mas em se tratando de bolo, no caso de fubá, ele sempre será de fubá não importa a forma que tiver, o princípio é o mesmo.
No entanto, se buscamos a forma em detrimento do princípio, sempre vamos tentar enfeitar mais aqui, melhorar um pouco ali, de modo que nunca vai sobrar tempo para trabalharmos a massa, porque na verdade acreditaremos que o que todo mundo quer mesmo, é passar o dedo na cobertura.
A cobertura é doce, pode até agradar no princípio, mas não tem consistência e com o tempo enjoa e adoece. A taxa de açucar sobe, e podemos ser acometidos de uma "diabete espiritual", se é que posso usar esse termo.
Logo, já está mais que na hora de tirarmos todo o glacê e começarmos a provar a massa. Já está na hora de abandonarmos a sacralidade do Templo-Igreja-Sinagoga e passarmos a encontrar a comunidade-ajuntamento-eclésia de Deus, a qual possui um único lugar sagrado, que é o altar erguido no coração humano.
É hora de abandonarmos nossas justiças próprias e nossos supostos direitos de julgamento sobre a alma do próximo, e nos entregarmos ao amor de Jesus, que nos ensina que a misericórdia é o único parâmetro de julgamento de seus discípulos, posto que além disso, todo ser humano há de cometer injustiça em algum momento, pois só Deus conhece o que se passa no coração de cada um.
Portanto misture pessoas, misericórdia, Palavra Viva de Deus, longanimidade e adoração. Tudo verdadeiramente, em nome de Jesus. Escolha sua forma e deixe que o Amor Infinito de Deus aqueça os corações, fazendo com que a massa cresça e se expanda.
Minha querida vózinha se foi, não sabia ler nem escrever, não podia deixar um registro escrito da receita de seu bolo, que havia aprendido da boca de sua mãe. Meus tios, tias e mãe, são de uma outra época, não tiveram paciência para aprender a guardar no coração e na mente uma receita tão boa. E eu, se na época tivesse a mentalidade de hoje, deveria ter me preocupado em aprender, ao invés de apenas saborear. Com certeza não teria o pesar de nunca poder mostrar para meus filhos o sabor daquele bolo.
Jesus também não deixou estatuto, dogmas ou bulas, mas ele deixou algo que não pode ser mensurado em plenitude de forma escrita ou estatística, como muitos fazem, até mesmo esse texto.
O sabor só é conhecido quando provado.
Não deixe a receita se perder.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Viver é teimosia

“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes sem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos. Além do mais, ninguém sabe quando virá a sua hora: Assim como os peixes são apanhados numa rede fatal e os pássaros são pegos numa armadilha também os homens são enredados pelos tempos da desgraça que caem inesperadamente sobre eles” (Eclesiastes 9.11-12).
Gosto de Eclesiastes, sobre muitos aspectos é o livro menos "espiritual" da Bíblia. Coloco a palavra entre aspas, por considerar, não o sentido profundo de ser espiritual, mas o sentido por demais místico que essa palavra adquiriu nos últimos séculos, principalmente entre o meio cristão. De certo a afirmação mais "espiritual" (olha só as aspas de novo) de Eclesiastes é que ao morrermos nossos corpos se tornam pó, e nosso espírito volta à Deus, que nos deu.
A espiritualidade de Eclesiastes é mais sutil, pois fala de situações e momentos que todo ser humano vivência ou vivenciára mais adiante na sua jornada.
O texto acima, me fala profundamente, da natureza caótica da vida.
São realmente gritantes as tentativas humanas de controlar o futuro, o curso da vida, tão gritantes que chegam a ser patéticas. A vida se impõe sobre nós, trazendo consigo uma infinidade de variáveis que não podem ser preditas ou controladas, pelo menos não todas.
Sendo assim, acredito que viver, é também sobreviver aos interpéres do acaso, que brotam a cada nova virada, estrada ou encruzilhada que seguimos.
Alguns podem me acusar de herege, não crendo na soberania de Deus, mas é justamente por crer nessa soberania que escrevo esse texto.
Deus não criou um sistema de engrenagens mecânicas perfeitamente sincronizadas, num sistema fechado, o qual Ele poderia controlar, de seu Trono, como um chefe de máquinas controla o funcionamento de seus intrumentos mecânicos, de sua sala.
Não. Deus criou um universo com um grau de liberdade tão profundo, que tornou possíveis os acidentes. Mesmo estando ciente de todas as escolhas que tomamos, boas ou más, Ele ainda assim escolheu a liberdade como dádiva, à uma perfeição mecanicamente projetada. E creio eu, é nisso que consiste a poesia da vida. É como um lençol, que tremula no varal, pela força do vento, mas que ainda permanece lá, numa tentantiva teimosa de vencer a força do vento que insiste em derruba-lo, e com o passar do tempo, a teimosia vai secando o lençol e o deixando mais leve, para bailar sobre o vento, e impedir que o mesmo o derrube
Logo se somos livres, também somos sujeitos a liberdade de tudo o que há no universo. Não vivemos numa redoma, onde estaremos sempre protegidos de tudo e de todos.
Se escolhermos a liberdade, temos que ter persistência para sobrevivermos aos obstáculos que surgem inesperadamente, como diria Eclesiastes. Para sobrevivermos a esse "acaso", aos outros, a vida e até a nós mesmos. Viver é como um lençol teimoso que baila e se deixa "secar" pelas tentativas caóticas de derrubar-nos, ficando a cada dia mais "leves" e com isso aperfeiçoando o nosso balé, e não uma esforço para dominar as chances e possibilidades que surgem.
Logo nesse rio bravo de nossa existência devemos ser teimosos, e remarmos contra a maré para alcançar um porto tão próximo, mas ao mesmo tempo tão distante.


Breve

Mais um ano se passou na minha existência, parece que foi ontem, quando ainda brincava de pipa e bola de gude, no lado da quadra da escola na periferia de Campinas. Quando saímos para roubar manga na chácara do vizinho, ou andarmos de bicicleta à tarde depois da aula, quando contavamos piadas e comíamos milho em volta da fogueira no inverno, à altas horas da noite
Sinto que o tempo passa mais depressa, a cada ano, os momentos são mais rápidos, e quando me dou conta, eles já foram embora.
Vejo meu filhos, como crescem rápido,e a cada dia, sinto que o tempo é menor.
Quando somos crianças tudo custa tanto a passar, é o Natal que demora a chegar, é o aniversário que não vem logo. uma noite dura uma década, e sem experiência não aprendemos a valorizar os pequenos momento que se vão e não se repetem.
Hoje reconheço que o tempo é cruel, quanto mais velho, mais percebo o sabor que a vida tem, mais quero desfruta-lá e aprender a vivê-la, porém parece que menos tempo tenho.
Meu Deus, como pode o tempo passar tão depressa justo agora que conheci a poesia de Fernando Pessoa, a sabedoria de C. S. Lewis e Philip Yancei, a melodia de Betthoven, a profundidade de Zygmunt Bauman e o romantismo de Djavan ?
Como pode tudo correr tão depressa, quando finalmente tenho tempo para meus filhos? Como posso me sentir tão ultrapassado vendo eles conversarem comigo? Eles que até ontem ainda estavam aprendendo a andar mas que com certo espanto, percebo eu, amanhã estarão saindo para namorar, noivar e casar!!!
Não. não meu Deus, não permita que o tempo passe sem que eu perceba. Sem que eu deixe minha marca, sem que eu faça a diferença.
Me ensine a enxergar a beleza nas pequenas coisas, nos momentos com meus amigos, com minha família. Me ensina a viver longe dos bajuladores e dos holofotes. Que o tempo seja meu amigo, e não meu adversário.
Tenho 27 anos, mas me sinto como se tivesse 40.
Tantos medos e tantas preocupações. Me de a vitalidade do menino que ia nadar escondido, que subia no pé de seriguela, e que saía para jogar queimada depois da chuva, a sabedoria que ainda não tenho, mas que o anos me cobram.
Sei que é impossivel parar o tem

terça-feira, dezembro 26, 2006

Como se Deus não existisse

[Ricardo Gondim]

No século passado, Karl Marx e Sigmund Freud representavam duas grandes ameaças contra a religião. Marx afirmava que a igreja serve a interesses ideológicos de controle político e de subjugação econômica. Freud, por sua vez, percebia os mecanismos infantilizantes da religião quando sacerdotes projetam em Deus nosso desejo por um pai perfeito. Para ele, a prática religiosa condena homens e mulheres a viverem como eternas crianças, sempre precisando de intervenções sobrenaturais para enfrentar as agruras da vida.
É preciso dar a mão à palmatória. Os dois leram as instituições religiosas dos seus dias corretamente, principalmente a cristandade. Desde Constantino, o apelo do poder mostrou-se arrasador e irresistível nas igrejas. Infelizmente, os ensinos do Nazareno foram usados para autenticar o expansionismo imperialista e colonialista dos grandes impérios que se auto-proclamaram cristãos. Padres, pastores e bispos se vestiram como a grande prostituta do Apocalipse e se entregaram por qualquer preço. Monarcas beijaram anéis episcopais enquanto obrigavam seus donos a lamberem suas botas. Assim, os mercadejadores do templo precisaram distribuir ópio religioso para poderem fazer vista grossa e abençoar inúmeras carnificinas – dos Tsares russos ao Batista cubano; das aventuras ensandecidas de Isabel espanhola às dos Bush, pai e filho.

A adoração do “Deus provedor” ocidental deu razão a Freud, que denunciava os recintos religiosos como incubadoras de oligofrênicos. O proselitismo missionário foi feito, em grande parte, precisando de uma espiritualidade funcional. Na tentativa de mostrar a superioridade de Jeová sobre as demais divindades, criou-se um fascínio por milagres. “Nosso Deus funciona”, clamaram os evangelistas por séculos. Desse modo, o sobrenatural passou a ser compreendido como uma intervenção legitimadora daquele que é o verdadeiro “dono do pedaço”. Assim, os crentes viciados em milagres se condenaram à freudiana dependência infantil.
Em minha opinião, só seria possível resgatar a mensagem de Jesus Cristo, caso a religião abrisse mão de suas hierarquias institucionais, demitisse elites, democratizasse o acesso a Deus, e esvaziasse os rituais da função de serem técnicas para se obter bênçãos. É importante que repensemos a fé, seguindo o exemplo de Jesus que viveu sem precisar de milagres e morreu sem apelar para os anjos. Iguais a ele, precisamos viver sem os cabrestos da religião e sem as intervenções de Deus.

Concordo com John Hick em “Evil and the God of Love” (New York, Harper & Row; London, Mcmillan, 1966, p. 317)

“Ao criar pessoas finitas para amar e serem amadas por ele, Deus precisa dotá-las com certa autonomia relativa quanto a si mesmo”. Mas como pode uma criatura finita, dependente do Criador infinito quanto à sua própria existência e a cada poder e qualidade do seu ser, possuir qualquer autonomia significativa em relação a esse Criador? A única maneira que podemos imaginar é aquela sugerida pela nossa situação efetiva. Deus precisa colocar o homem à distância de si mesmo, de onde ele então pode vir voluntariamente a Deus. Mas como algo pode ser colocado à distância de alguém que é infinito e onipresente? É óbvio que a distância espacial não significa nada nesse caso. O tipo de distância entre Deus e o homem que criaria certo espaço para certo grau de autonomia humana é a distância epistêmica. Em outras palavras, a realidade e a presença de Deus não devem se impor ao homem de forma coercitiva como o ambiente natural se impõe à atenção deles. O mundo deve ser para os homens, pelo menos até certo ponto, etsi deus non daretur, “como se Deus não existisse”. Ele precisa ser cognoscível, mas apenas por um modo de conhecimento que implique uma resposta livre da parte do homem, consistindo essa resposta em uma atividade interpretativa não-compelida através da qual experimentamos o mundo como realidade que media a presença divina”.


Uma nova igreja precisa se desvincular de seu fascínio pelo poder, qualquer um: político, econômico, militar ou espiritual. Repito, urge que homens e mulheres construam sua humanidade, sendo sal da terra e luz do mundo, sem necessitar de repetidos socorros celestiais.

[Ricardo Gondim]

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Faça valer

Retirado do blog outraespiritualidade.blogspot.com de Ed René Kivitz

Quero que me digam que eu tentei ser direito e caminhar ao lado do próximo.
Quero que vocês possam mencionar o dia em que tentei vestir o mendigo, tentei visitar os que estavam na prisão, tentei amar e servir a humanidade.
Sim , se quiserem dizer algo, digam que eu fui um arauto: um arauto da justiça, um arauto da paz, um arauto do direito.
Todas as outras coisas triviais não têm importância.
Não quero deixar nenhuma fortuna. Eu só quero deixar uma vida de dedicação!
E isto é tudo o que eu tenho a dizer:
Se eu puder ajudar alguém a seguir adiante,
Se eu puder animar alguém com uma canção,
Se eu puder mostrar a alguém o caminho certo,
Se eu puder cumprir o meu dever cristão,
Se eu puder levar a salvação para alguém,
Se eu puder divulgar a mensagem que o Senhor deixou...
...então a minha vida terá valido a pena!

[Martin Luther King Jr.]

Vale de Ossos

O vale de ossos
Acredito que não exista ser humano que nunca se decepcionou. Que nunca firmou esperanças num ponto, acreditando que esse ponto era uma rocha firme, até o momento que o vento soprasse e demontra-se, que a rocha na verdade era só um monte de areia, que com o tempo se esvaiu.
Não é difícil imaginar uma situação assim, basta olhar para as histórias de nossas vidas, e encontraremos capítulos que nos falam de ilusão, de doces momentos que eram doces como o mel enquanto escorriam pela nossa boca, mas que ao tocarem o estômago, se demonstraram amargos como o fel.
Ao contrário do que possam pensar, acreditar em algo, não é fraqueza, é virtude. E mesmo que esse algo mais tarde se revele em alguma coisa que foge de nossas expectativas, não significa que a culpa é sua, ou que foi sua fé que te enganou.
Isso só demonstra que somos humanos, temos sonhos e ambições,e embora vivamos numa época tão "racional" que se recusa a aceitar algo tão incerto e não-planejado quanto a esperança, não significa que nós não vivamos por ela. Pois é por primeiro acreditar, que queremos conhecer, é por primeiro sonhar, que buscamos compreender.
Sendo assim, admito que já me decepcionei, com "verdades" que nem sempre se mostraram verdades, por palavras suaves, mas que no final causaram cicatrizes profundas em mim e em minha alma, mas não é por isso que vou deixar de crer, que vou recusar as benção que já alcancei, e que ainda alcançarei simplesmente pelo fato de acreditar.
O meu, o seu, o nosso futuro é incerto, e a vida é curta. O dia final pode ser hoje, amanhã ou daqui a cinquenta anos. Mas tenho certeza de uma coisa quanto ao futuro, não quero pensar nele olhando para trás, nem quero que minhas decepções se tranformem em fantasmas que assolam minhas perspectivas de futuro.
Mesmo com tantas decepções, também vivi alegrias, mesmo com tantas negações, também recebi aceitação de onde eu menos imaginava, e para cada dia de chuva, sempre houve um dia de Sol.
Penso que às vezes, essas aflições me servem de lição, não para deixar de crer, mas para crer ainda mais, que se esta noite eu choro, como diria Davi, ao amanhecer eu me alegrarei.
Então, já não me preocupo com a maquinações, mentiras e omissões que acontecem longe de minha vista. Aprendi com o Apóstolo Paulo, que não há nada que exista em secreto que não venha a ser revelado. Só peço forças para encarar a verdade quando ela aparecer, e sabedoria para aprender com isso.
Como disse Deus ao profeta Ezequiel, quando esse se encotrava num vale de ossos secos, que representavam sua desolação, por mais árido que possa ser sua vida,e por mais ossos que vc encontre, sempre existirá uma centelha divina dentro de você, para trazer esperança em um novo amanhã, e transformar esse vale de ossos num exército que te ajudará a vencer suas batalhas.

Revolução na Mochila

Semanas atrás recebi um email que sinceramente me comoveu. Falava de Edigar, um missionário que foi para o Timor Leste, no intuito de levar um pouco mais de amor de Deus, atrvés do Evangelho de Cristo para as pessoas, homens e mulheres, daquele pequeno país que sofrem com as mazelas de uma guerra civil impiedosa.
Faço parte do Caminho da Graça em Campinas, e como tal, estou sempre antenado no que acontece pelas Estações do Caminho que nascem pelo Brasil, e graças sincera intervenção de Edigar, estava começando a nascer em Timor Leste.
Quando recebi o e-mail de meu amigo e irmão espiritual, Marcelo Quintela, acerca do que havia acontecido com Edigar, no Timor Leste, fato que pode ser comprovado entrando em www.caiofabio.com, me perguntei quem seria.
Não vou expor os emails enviados por Edigar aqui, pois ocuparia muito espaço, e acredito que nem todos leriam, mas queria deixar algumas palavras sobre Edigar, que não conheci a não ser por e-mails que nem sequer eram endereçados a mim, e que apenas tomei conhecimento após a sua morte.
Como o próprio Marcelo disse, Edigar carregava a doce revolução na mochila. Longe de todos os nossos dogmas e regras, ele aprendeu a conhecer a Deus de uma forma mais íntima. Pelas correspondêcias encontrei um ser humano com suas paixões e medos, mas consciente de sua missão.
Edigar nos mostra que é nos abismo mais profundos de humildade e miséria humana, que ocorrem as maiores manifestações do Reino.
"Eu não quero chegar ao fim da vida, olhar para trás, e concluir que eu trabalhei para Deus, mas não me relacionei com Ele; que não permiti que Ele construísse em minha vida nada que significasse uma intimidade de relacionamento entre nos. " Aurélio Edigard.


Obrigado Edigar, por nos trazer com sua vida, a diferença entre trabalhar para Deus, e ter um relacionamento com Ele.

Me resta agora a esperança de que um dia nos encontraremos de novo.
E utilizando aqui as palavras do Marcelo
"Pai, recebe meu irmão que Te vestiu quando Tu estavas nu; que Te visitou quando Tu estavas preso, e que alimentou teus pequeninos sem temer aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma que carrega a doce revolução na mochila!"

sexta-feira, novembro 03, 2006

Admito, tenho medo

Hoje acordei pensando no futuro, e sinceramente, tive medo.
Pois hoje me olho no espelho, e não mais me reconheço, não vejo mais o homem de anos atrás, tão cheio de certezas e pilares de verdade, que queria ganhar o mundo com suas palavras.
Creio que em certa medida, me decepcionei. Me decepcionei com os jogos, com a cobiça, com a ansiedade desenfreada, e as palavras impensadas que já proferi, e vi proferirem.
Me decepcionei com o ser humano, principalmente o que há em mim, pois acreditei que poderia ser suficiente, e abracei tarefas que se mostrarão fúteis e sem sentido, perdi muito tempo no que não importava, só para agradar à uma platéia que hoje, reconheço, vive de ilusões, pois a verdade lhes é extremamente amarga, pois suas próprias bocas foram contaminadas com o moralismo, e o fundamentalismo nascidos da alma humana, numa patética tentativa de se elevar frente ao Absoluto.
Gastei muito tempo longe dos meus, atrás de um sucesso que o mundo inteiro ansiava de mim, mas que para mim foi de pouca valia.
Tantas noites em claro, tantas preocupações, tantas tarefas a serem cumpridas, e no fim, percebi que a maioria delas era apenas Vaidade de Vaidades, como dizia Salomão.
Tantas pessoas, tantos nomes, tantas oportunidades, deixadas de lado, pela falta de tempo que eu mesmo criei.
E hoje, estou num turbilhão de confusões e angustias de minha alma, pelo que deixei passar, pelo que não deixei passar, pelos que conheci, e pelos que tento esquecer.
Não nego, tenho medo.
Pois sempre trabalhei com panoramas traçados, esquemas prontos, tudo estritamente planejado. Mas o caminho não é assim.
E olho para frente e o que vejo é uma multidão de possibilidades, mas nenhuma bem definida.
Como um pássaro a borda do ninho, eu ouço uma voz que diz "Pule!!", mas sinceramente, tenho medo.
Tenho medo, de viver pelo vento, indo aonde ele sopra, sem noção do futuro mais próximo, sem planos, apenas indo.
Não, não estou decepcionado com Deus, pois talvez somente agora, nesses momento de duvida e angustia é que eu realmente ouço sua voz me dizendo, "Pule!!!".
Olho para trás e vejo a mim mesmo, e outros, se agarrando ao ninho, gritanto para que eu não faça isso, que existe outro jeito, que é arriscado, que podemos preparar uma estratégia.
E olho para baixo, a altura é imensa, mas a imensidão do horizonte incerto diante de mim, é bem maior.
Sinto a brisa que vem de longe, um vento suave, mas marcante. Minhas angustias e medos me seguram no chão, presos à uma falsa segurança, um castelo de cartas que o vento pode desfazer quando quiser.
Sei que tenho asas, que posso voar, embora o medo as mantenha junto de mim.
E penso, quantos, quantos já não saltaram, e sem dar ouvidos aos seus medos abriram asas e entraram na dimensão desse horizonte infinito, e incerto, e construíram seus caminhos seguindo apenas a voz que me diz "Pule!!!"?
E quantos que saltaram, mas não abriram as suas asas, e até hoje caem para a morte certa?
Paro em frente ao meu ninho, um precípicio está aos meus pés, mas o horizonte está adiante.
Uma última vez, ouço a voz dizer "Pule!!!" antes de me precipitar, para o infinito, onde minhas "certezas" são dissipadas pelo vento que toca meu rosto.

O Poeta

O poeta ao contrario do que muitos dizem, não é aquele que consegue casar rimas em frases de efeito, ou que simplismente identifica uma musicalidade a esmo, nas coisas visíveis e invisíveis.
Não, o poeta é algo mais, que pode viajar profundamente pelos dramas e sonhos humanos e transforma-los numa linguagem propositiva, expressando através de um idioma, de uma cultura, de figuras de linguagem, tudo aquilo que sua alma sente.
Sendo assim, o poeta é antes de tudo um tradutor, que consegue fazer o que parece a princípio ser impossível, transcrever para palavras o que é impronunciavél, tranformar em objetividade escrita, mesmo que essa objetividade seja paradoxalmente composta de subjetividade, tudo aquilo que não pode ser dito, mas sentido.
Logo, o que o poeta propõe, é a descrição do indescritível, a exposição do oculto, a abertura dos porões da alma.
Então fica claro que o poeta também é um aventureiro, pois se arriscou a conhecer mais profundamente a própria alma, e através desse conhecimento, aceitou a tarefa às vezes frustrante, às vezes recompensadora de entender a alma humana.
Sim, pois aí está marcada toda a veracidade e legitimidade do que escreve, pois um poeta só fala daquilo que sente, simples assim.
Mas nem sempre feliz, pois quando alguém se propõe a conhecer a si mesmo com uma dose de profundidade como essa, pode estar mais aberto as coisas pequenas e passageiras, mas que fazem a diferença na vida de muitos, embora nem todos saibam disso, pode estar aberto a encontrar expressões de felicidade onde ninguém mais as vê, no entanto pode também, encontrar o medo e a angústia, o sofrimento e a solidão em frases, gestos ou simplismente no silêncio de quem ama.
Sendo assim, acredito que todo poeta, é também um pouco profeta. Não no sentido premonitivo da palavra, uma vez que os poetas não fazem previsões, ou entregam profecias, mas no sentido de poder enxergar pequenas porções do divino, aqui e ali, e se alegrar com elas, bem como trazer para si a profunda tristeza que a ausência delas traz.
Portanto, o poeta é uma pessoa extrememente passional, embora utilize a métrica de rimas e estrofes.
Ele consegue trazer a harmonia inerente em cada alma humana, para compor pedaços de expressão sobrenatural divina, para os homens que infelizmente perderam essa capacidade. É um porta voz do oculto, daquilo que não se vê, traduzindo em algumas palavras a multidão de sonhos e impressões guardada na alma humana.
Nos mostrando o quanto nos podemos deixar que o paraíso se aproxime, ou o quanto nos podemos construir do inferno... tudo isso, dentro de nós.

sábado, setembro 30, 2006

A Voz de Deus


Texto Base Salmo 19
Há uma voz
Apesar da ansiedade, da vida atarefada, há uma voz.
Que não tem som, que se encontra na beleza de todas as coisas
Na simplicidade que não é notada, na complexidade observada.
Há uma voz
Para aqueles que estão prontos para ouvir.
Recitada no curso da vida, que tem por testemunha o Sol e a Lua.
O mar e as montanhas. Que se extende de uma extremidade a outra da Terra
Há uma voz
Que não possui códigos para que seja transcrita ou decifrada
Para que não seja aprisionada, embora ja tenha sido tentado.
Há uma voz
Uma poesia concreta, saida do coração do Artista, recitada em
versos no decorrer dos dias, nos sonhos da noite, passando sabedoria através do tempo. Há uma voz.
E o tempo que corre grita para almas aflitas, que existe uma voz, que em meio ao desespero pede calma, que na solidão sussurra "estou aqui", mesmo sem nenhum som, há uma voz.
Há uma voz que produz vida.
Mas o que aconteceu?
Ninguém mais ouve a voz.
Marcaram horários, estabeleceram lugares, ergueram templos, mas não ouviram a voz.
Tentaram agenda-la, catequiza-la, doutrina-la.
Mas a liberdade de sua essencia não permite.
Não é uma voz de bibliotecas, insenso, velas...
É uma voz de ondas, praia, chuva e trovão.
Que não pode ser contida, mas que existe dentro do coração.
Que quebra barreiras e constrói pontes entre nós.
Que nos fala de Amor, Perdão e Fé.
Mas que pena. Ninguém quer saber da voz.
Por que ela penetra em lugares do ser desconhecidos, e revela verdades escondidas, mostrando um caminho de crescimento, onde os
defeito deixa de ser tropeço e se torna degrau, onde não há culpa que não possa ser curada, erro que não possa ser corrigido.
E mesmo que poucos ouçam, ela ainda continua aí dentro
Então faça silencio e comece a ouvir...

Vitor

sexta-feira, setembro 08, 2006

Quem não quiser amar


Quem não quiser amar, não dance na chuva.
Não sinta o cheiro da grama molhada.
Não encare alguém nos olhos.
Não beije escondido.
Não aprenda a chorar pelo descaso.
Nem a se alegrar apenas por um sorriso.
Não adoeça na distância, nem se cure na presença.
Não aprenda a perdoar.
Não perca a hora, quando não estiver sozinho...
Não admire um olhar.
Não tenha expectativas, mesmo sabendo que o amor é imprevisivel, quem não quiser amar.
Não admire o por do Sol, nem as coisas mais simples e cotidianas que te fazem lembrar...
Não tome vinho com chocolate,
Não chore baixinho quando for rejeitado.
Não escute uma canção por horas e horas, só porque te lembra alguém.
Não abra seu coração.
Não se arrisque, não conheça ninguém novo, pois entre esses fatalmente encontrará alguém para amar.
Quem não quiser amar, não leia Vinicius de Morais, Camões ou Fernando Pessoa.
Não escreva poesia, não olhe para quadros, não faça rimas quem não quiser amar.
Não cometa loucuras por alguém, nem "chute o balde" pelo que sente.
Quem não quiser amar, tranque seus sentimentos num esquife chamado coração, e enterre no fundo de sua alma.
Assim não será importunado, não terá sua paciência testada nem sua misericórdia requerida.
Quem não quiser amar não busque em ninguém um caminho para se encontrar.
Permaneça intacto, imóvel e inerte, quem não quiser amar.
E saiba que mesmo que você não sofra, também não aprenderá, que as boas coisas da vida não são para aqueles que não se arriscam a amar.
Vitor

Os Porões da Alma


É muito comum ver a fachada da casa, ela está exposta para todos que passarem na rua. Conhecer o interior já requer um convite do proprietário, e mesmo assim geralmente não se passa da sala. Agora o porão, é um lugar muito reservado, que vive fechado, por conter apenas coisas foras de uso, velhas, ou pouco agrádaveis...
Encher um porão não é díficil, leva um pouco de tempo, e às vezes
é um ato que passa despercebido.
As vezes criamos porões dentro de nós, e enchemos de tudo que queremos esquecer, no príncipio pode paracer até viável, mas com o tempo o porão cresce, e vai tomando mais espaço dentro da alma.
Encher o porão da alma é fácil, basta tentar ignorar seus problemas e as consequencias que eles trazem, esvaziar é que é difícil. Então se torna necessário abrir as portas dos porões e pedir ajuda. Quando alguém entra no porão de uma casa que não é sua, e começa a procurar entre todas as coisas pode encontrar algo que desperte seu carinho e interesse, que mereça sua atenção, mesmo que estivesse sendo guardado a muito tempo. Sabem pq? pq todos temos uma empatia muito grande uns com os outros, quando percebemos isso, vemos que nossos "porões" podem ser parecidos, e podemos mostrar seu conteúdo, pois sentimos as mesmas coisas, mesmo que as situações sejam diferentes.
Assim, é bom ser prudente, não abrindo a porta para todos, mas deixar ela sempre fechada pode gerar coisas muito indesejáveis, uma vez que os poroes só estão escondidos, mas não deixaram de existir, com o tempo a casa pode se tornar apenas porão, e tudo o que resta é a aparencia externa, que pode ser bonita, mas que por dentro ninguém conhece... Somos seres que precisam de relacionamento, pois quando nos relacionamos é que descobrimos quem realmente somos.
E quando nos damos conta disso, descobrimos novos sentimentos e sensações que nem sempre precisam ser racionalizados, mas vem do impulso do momento, da impressão. Então percebemos que isso nos torna pessoas, gente que sofre, chora, grita, mas que também sorri, se alegra. E é partir dessa compreensão de quem vc realmente é, de como se sente, e do porque de guardar algo em seu porão, que voce pode escolher abolir ou reaproveitar o que existe ali. E às vezes aquilo que acreditávamos ser inútil, ou pedra de tropeço, conseguimos usar como degrau.
Logo, não banquemos o mito inatingível e sem falhas, mas procuremos alguém para confiar, amar, e abrir os porões da alma. Só quando encontramos esse alguém, é que encontramos um modo de crescer e um "porque" de crescer. Aprendemos que é a partir daqueles que amamos, que podemos fazer o ímpossível acontecer.
Então comecemos uma nova etapa, abrindo os porões, e ouvindo a voz de Deus dentro de nós, que muitas vezes estava abafada por tanto entulho.
Assim podemos abrir as portas e deixar a Luz do Sol entrar, revelando uma multidão de cores, que muitas vezes eram desconhecidas por nós mesmos...
Vitor

A acusação dos demônios e o julgamento humano


No Sermão do Segundo Domingo do Advento, Vieira afirmou que antes quisera ver-se acusado do demônio do que julgado de homens: "Porque os demônios apenas acusam as obras e palavras, ao passo que o homem julga e condena até os mais íntimos pensamentos, muito embora os não possa conhecer. No juízo de Deus as nossas obras defendem-nos, no juízo dos homens o maior inimigo que temos são as nossas boas obras. Não há maior delito no mundo do que o ser melhor. Um grande delito mais vezes achou piedade; um grande merecimento nunca lhe faltou a inveja. No juízo de Deus perdoam-se os pecados como fraquezas; no juízo dos homens castigam-se as valentias como pecados. Deus vos livre de vossas obras, e muito mais das grandes, pois muito mais seguro é ir com pecados ao juízo de Deus, que com milagres ao juízo dos homens! Em Deus há misericórdia, na inveja não há perdão." Pe Antonio Vieira.